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O megainvestidor Sam Zell afirma que o mercado imobiliário brasileiro deve continuar crescendo

Confira o principais trechos da entrevista concedida à revista Exame:

26/11/2012

Confira o principais trechos da entrevista concedida à revista Exame:

EXAME - Há três anos, o senhor disse que, se pudesse, “compraria o Brasil”. Continua otimista como antes?

Sam Zell - Muita coisa mudou desde então. Naquela época, o país crescia a uma taxa de 8% e todos os investidores do mundo queriam estar no Brasil. Agora, o país cresce 2,5% e o ritmo está reduzindo. Boa parte do que está acontecendo no país é reflexo da crise na Europa.

Todos os mercados emergentes sofrem uma desaceleração e o Brasil não é exceção. A moeda brasileira desvalorizou 18% desde o início do ano. A moeda indiana desvalorizou 25% no mesmo período. O crescimento chinês está mais lento.

EXAME - Isso quer dizer que os tempos de prosperidade estão ficando para trás?

Sam Zell - Não. Daqui a dez anos, o Brasil vai sair disso bem. Mas os próximos dois ou três anos serão mais difíceis, com um contexto externo desfavorável.

EXAME - As oportunidades de negócios no país também devem diminuir? 

Sam Zell - Pontos de vista diferentes podem fazer a mesma situação parecer interessante para um e assustadora para outro. Quando começamos a investir no Brasil, ninguém nos seguiu. Não tínhamos competição e era ótimo. Depois passamos a ter muita competição — e ficou menos ótimo. Agora temos menos competição de novo. As oportunidades tendem a aumentar.

Sam Zell - Sou um oportunista profissional. O número de transações que teremos será proporcional às oportunidades que encontrarmos.

EXAME - Em sua opinião, existe uma bolha no setor imobiliário brasileiro?

Sam Zell - Não. Enquanto houver mais demanda do que oferta no país — como atualmente —, não haverá bolha.

EXAME - Por que tantas empresas do setor passaram por apuros com maus resultados no balanço e queda expressiva nas ações?

Sam Zell - Não diria que elas passaram por apuros, mas o setor saiu de um período ótimo e agora não está tão ótimo assim. Ganhamos muito dinheiro com empresas como a BR Malls (gestora de shopping centers), um dos melhores investimentos que já fizemos. Muitas companhias do setor imobiliário, como a Gafisa, tiveram dificuldades por problemas na gestão.

EXAME - O senhor pressentiu problemas antes de vender sua participação na Gafisa em 2010?

Sam Zell - Não. Muitos de nossos investimentos no Brasil fazem parte de fundos. E fundos, infelizmente, têm um fim. Nosso investimento original na Gafisa era do fundo 2 — agora já estamos no fundo 5. Fomos obrigados a vender as ações para remunerar nossos investidores.

Os problemas na empresa começaram logo depois. Mais recentemente, demos uma segunda olhada na Gafisa para investir junto com a GP. Mas não houve interesse por parte do conselho. Talvez tenha sido melhor assim.

EXAME - O que deu errado com a Gafisa?

Sam Zell - Tudo aconteceu depois que deixamos o controle e o conselho. Os problemas começaram quando a empresa deixou de ter um controlador. Seguiu-se um período instável e o conselho não se manteve coeso para tomar decisões. Mas essa é apenas minha opinião.

EXAME - O conselho da Gafisa agiu no melhor interesse dos acionistas ao negar sua oferta neste ano?

Sam Zell - Não tenho opinião sobre isso.

EXAME - O que planejava para a Gafisa se tivesse retomado o controle?


Sam Zell - Como a oferta não foi aceita, não vamos discutir nossos planos.

Sam Zell - Não tenho visto os números nos últimos meses, portanto não sei.

EXAME - Existem muitas empresas sem dono nos Estados Unidos — enquanto isso ainda é raro no Brasil. Por quê?

Sam Zell - Com a maturação da economia brasileira, quase por definição, haverá mais e mais empresas sem controlador. Pense no caso da General Electric, nos Estados Unidos. Se alguém quiser ter participação relevante, terá de dispor de mais de 25 bilhões de dólares em ações.

À medida que as economias crescem e se expandem, o controle dissolvido na bolsa representa uma evolução natural. Isso ainda não está acontecendo no Brasil. Mas, à medida que as empresas se valorizarem na bolsa, daqui a uns cinco anos, poderá se tornar algo trivial.

EXAME - Quais são os outros setores que o interessam no Brasil?

Sam Zell - Já investimos um pouco em varejo e agricultura. Olhamos muitas oportunidades. Mas, por enquanto, não achamos nada tão animador quanto o setor imobiliário.

EXAME - Cerca de 70% de seus investimentos nos Estados Unidos atualmente são dedicados a setores como infraestrutura e energia. Por que sua empresa, a Equity International, não investe nessas áreas no Brasil?

Sam Zell - No Brasil, a área de energia é dominada por Petrobras e OGX. E não há um número vasto de novas empresas em diversos estágios de desenvolvimento, como nos Estados Unidos.

EXAME - E há oportunidades na área de infraestrutura?

Sam Zell - Em tese é uma área muito interessante no Brasil. Há muito para fazer. Mas se trata de um investimento muito sensível ao custo de capital. E o custo de capital no Brasil é muito alto — e deve se manter alto. O retorno do investimento nesse setor, portanto, não me parece muito bom. São investimentos muito grandes e o retorno é de muito longo prazo.

EXAME - Com a crise, quais são as oportunidades nos Estados Unidos?

Sam Zell - As empresas ainda estão muito endividadas. Existe muita oportunidade para ter lucro ao oferecer dinheiro rápido e certo a empresas em dificuldades. Já investimos mais de 600 milhões de dólares nisso nos últimos três anos e é uma modalidade que ainda nos interessa muito.

EXAME - Circularam rumores de que o senhor está levantando 1 bilhão de dólares no mercado americano para um fundo dedicado a esse tipo de socorro a empresas em dificuldades. É verdade?

Sam Zell - Não podemos comentar os rumores do mercado. Mas, de fato, temos bastante interesse nessa modalidade de investimento.

EXAME - Em sua opinião, a recuperação americana continuará lenta?

Sam Zell - Depende da confiança em relação ao governo — e hoje ela não é muito grande. Há muito dinheiro no mercado. A recuperação americana depende muito mais da confiança de investidores e consumidores do que de qualquer outra coisa.

Fonte: Revista Exame